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25.1.13

MACAU - TURISTA OCIDENTAL - EPÍLOGO

Acabámos hoje a nossa viagem por Macau. As fotografias do Roberto Barbosa, tiradas em 1985, guiaram-nos num breve encontro com a História, numa viagem impressionista pelo exótico e desconhecido oriente. O que acabaram de ver, foram as fotografias expostas em Bruxelas (a 3 de Dezembro) e o texto que integra o respectivo catálogo. Estou em negociações para fazer uma exposição semelhante em Lisboa e outra em Macau. 
É muito estranho trabalhar com alguém que já morreu. Às vezes penso que se ele estivesse vivo nada disto seria possível. Ele era muito pouco dado a estas "mundanices". Não que fosse uma pessoa reservada ou tímida. Acho que era mais desinteressado. Alguém que não atribuía real valor ao que fazia. Que achava que era absolutamente normal. Que não merecia destaque. Sinto que, de certa forma, o estou eternizar em mim. E isso dá-me uma força extra. Quero aqui realçar o excelente trabalho do Carlos Costa, amigo e colega do Roberto no IADE, sem o qual nada disto teria sido possível.

Fotografia de José Maria T. da Rosa (1985).

MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXXIX


E fico eternamente à espera

O autocarro passa. Vejo-a de relance. Aceno desesperado. Desaparece ao virar a esquina. Um sorriso enigmático deixa em mim uma esperança pueril. Só podia ser ela. Ter-me-à visto? Sinto em mim a monção que me invade. Um tsunami que me abala. Um tufão que me destrói. E fico à espera eternamente. Macau.

24.1.13

MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXXVIII



A pérola mais preciosa

A transferência da soberania de Macau entre Portugal e a China aconteceu a 20 de Dezembro de 1999. Macau reencontrou o seu destino. A economia de Macau reforçou-se, assente no turismo e no jogo. Hoje, reconhecer esse Macau antigo é uma tarefa quase arqueológica. Macau, mais do que um sítio, é um conceito. Um conceito que vive na diáspora de si própria. Um Oriente que esconde a sua pérola mais preciosa. 

MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXXVII


Vim para ficar

Já nada quero. Já nada existe. Acho que já não sou. Talvez tenha perdido a razão. Deambulo pela cidade ao som de música celestial. Falo sem falar. Entendo sem entender. Vejo sem ver. Os deuses sopram em mim como vela sem pano. A neblina já não assusta. Deixei de ter calor. O mar fala comigo das tempestades que me assolam. Vim para ficar. Ela é o caminho.

23.1.13

MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXXVI


A violência acabou

A violência acabou. A repressão amainou. Começou a pressão política. Exigências pesadas e inegociáveis do lado chinês. Em Lisboa, Salazar não tomava posição. Finalmente, a 29 de Janeiro de 1967, o Governo de Macau e as autoridades chinesas chegam a acordo. Evitou-se uma sublevação generalizada, mas ficou claro que Portugal apenas estaria em Macau enquanto a China quisesse. 

20.1.13

MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXXV


Uma insónia sem angústia

Um sono milenar apodera-se de mim. Como se nunca tivesse dormido. Uma vida sem sonhos. Uma insónia sem angústia. Quero fugir e já não posso. E ficando sinto que não mais acordarei. Do outro lado há um mundo de vertigem. Uma vertigem que eu não domino. E durmo… durmo. E sonho… sonho. 

MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXXIV



Nunca mais seria o mesmo

No dia 3 de Dezembro de 1966, os manifestantes invadiram o Largo do Leal Senado gritando empunhando o Livro Vermelho. Grupos dirigiram-se à esquadra da polícia, com evidente intenção de a tomar de assalto. A polícia abriu fogo. A confusão generalizou-se à cidade inteira. Em dois dias de convulsão social houve 8 mortos e 200 feridos, todos chineses. O futuro de Macau nunca mais seria o mesmo.

19.1.13

MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXXIII



A vida quer mais do que eu

Equilíbrio instável. Vertigem permanente. Fico preso na neblina que me rodeia. Bambu resiliente. Resisto sem querer. Resisto porque a vida quer. A vida quer mais do que eu. Passa gente que não me vê. Espero que ela olhe. Espero que ela olhe e me veja. Estou sem destino. Aguardo um sinal.

18.1.13

MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXXII


Começou num incidente

Tudo começou num incidente irrelevante. Uma licença para uma escola popular que tardava em ser concedida. As autoridades portuguesas agiram com violência desproporcionada. A imprensa chinesa amplificou. Os protestos cresceram. As manifestações sucederam-se. O governo de Macau ficou debaixo de fogo, esqueceu o diálogo e a diplomacia. As tensões exacerbaram-se. As posições extremaram-se. 

17.1.13

MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXXI


A morte enfrenta-se de barriga cheia

Tudo se come. Tudo se bebe. Come-se com avidez. Com voracidade. Como se a vida fosse acabar hoje. Como se tivéssemos de sair a correr. A morte enfrenta-se de barriga cheia. O nosso lugar na terra marca a nossa hierarquia no céu. Da matéria se fará espírito. Os deuses aprovam. Os homens agradecem.

MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXX


Guardas Vermelhos

Nesse ano de 1966 a Revolução Cultural chegou a Macau. Chegou sem que as autoridades portuguesas se tivessem apercebido. Mais do que um protesto contra os portugueses, mais do que a intenção de integrar Macau na China, os incidentes visavam mostrar a Mao-Tsé-tung que Macau também era revolucionário. Macau tinha de ter os seus Guardas Vermelhos.

16.1.13

MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXIX


A porta era eu

A porta era eu. A minha única fronteira. Homens seculares. Desejos ancestrais. Caracteres indefiníveis. Quero ser o bule. Quero ser o chá. Quero ler as mensagens indecifráveis que me confundem. Quero entrar naquele mundo que me perturba. Quero devorar o desejo que me persegue. Cada vez estou mais dentro. Cada vez me sinto mais fora. 

15.1.13

MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXVIII


À beira de se perder

Em 1966, Macau esteve à beira de se perder. A inexistência de um canal diplomático com a China potenciou o aparecimento de figuras importantes de Macau arvorando-se em intermediários. Portugal ficou dependente desses contactos. Para agravar a situação, foram toleradas em Macau actividades de associações e de agentes ligados ao governo nacionalista da Formosa.

14.1.13

MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXVII


Chá fervendo

Hesito. Gente que fala sem parar. Palavras que não entendo. Respira-se um ar que não conheço. Homens sentados. Chá fervendo. Conversas quotidianas. Frases soltas. Expressões mudas. Sorrisos herméticos. Tabaco. Fumo. Cheiro antigo. Odor ancestral. Entro sem saber. Fico sem querer.

13.1.13

MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXVI


A presença portuguesa

A presença portuguesa era consentida de acordo com os interesses da China. Macau foi sempre um território chinês sob administração portuguesa. O principal erro político de Portugal foi não ter reconhecido o governo da República Popular da China, após a proclamação de 1 de Outubro de 1949.

12.1.13

MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXV


Venho de parte incerta.

Olhos oblíquos. Portas entreabertas. Sorrisos tímidos. Buracos negros de curiosidade. Estou naquele mundo sem lá viver. Sou estrangeiro. Venho de parte incerta. Vou para não sei onde. Parei aqui e daqui não consigo sair. À medida que avanço sou já estrangeiro de mim próprio.

11.1.13

MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXIV


Macau transforma-se.

A partir de 1944, apesar das restrições ao comércio internacional de ouro, Macau não é incluído na lista de territórios abrangidos pelas limitações. Macau transforma-se num dos principais centros mundiais de comércio de ouro. Depois de 1952, Macau viu reforçado o seu papel na entrada de bens estratégicos para a República Popular da China. Uma excepção ao embargo internacional.

9.1.13

MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXIII


Persigo o meu desejo

Os vestígios dela estão por todo o lado. Ainda não sei quem é. Talvez não exista. Talvez seja a minha imaginação que a vê. Adivinho a sua presença nas ruas tortuosas da cidade antiga. Na vertigem das ladeiras íngremes que sobem a Fortaleza do Monte. Nos riquexós adormecidos que povoam a minha alucinação. Persigo o meu desejo. Sofro o meu destino.    

MACAU - TURISTA OCIDENTAL - XXII


Fortunas

Em 1847 o jogo foi legalizado. O negócio do ópio faz fortunas. Durante a II Guerra Mundial, a neutralidade de Portugal potenciou o aumento exponencial da população refugiada em Macau. Floresceram negócios relacionados com a alimentação e bens de primeira necessidade

7.1.13

CANTOS E RECANTOS DE MACAU



Depois da chegada de Jorge Álvares em 1513, diz-se que foi o contributo português para vencer o terrível pirata Chang-Tse-Lao que terá sido decisivo para o estabelecimento comercial de Portugal em Macau. O porto de A-Má, (em cantonês A-Ma Gao, nome da deusa), em breve seria Amacao, Macao e, finalmente, Macau. Durante quatrocentos, Macau foi o baluarte português no longínquo oriente.
Em 1580, com a subida de Filipe II de Espanha ao trono de Portugal, Macau ficou numa situação delicada. As autoridades chinesas tinham cedido Macau à coroa portuguesa e não à espanhola. Temia-se que esse equilíbrio precário fosse alterado, tendo por pretexto a dominação espanhola. Talvez por isso, a bandeira portuguesa continuou a ser içada diariamente durante todo o período da ocupação filipina. Curiosamente foi nesse período que a administração do território se estabeleceu. Foi durante a ocupação espanhola que Macau conheceu a sua primeira “idade de ouro”.
Depois da Restauração, em 1654, D. João IV manda colocar no Senado da cidade o título de “Não Há Outra Mais Leal”. Macau passa a ostentar o orgulhoso título de “Cidade do Sto Nome de Deus de Macau. Não Há Outra Mais Leal”. Ironicamente, foi a partir do século XVII que começou o declínio comercial de Portugal em Macau. A feroz concorrência holandesa e inglesa. A perseguição dos católicos no Japão. O fim do monopólio português no comércio com a China. Em 1884, o estabelecimento dos ingleses na ilha Vitória, fundando Hong-Kong, relega definitivamente Macau para uma posição secundária. É preciso esperar pela II Guerra Mundial para se ouvir falar de novo em Macau. Foi durante a II Guerra Mundial que se fizeram as grandes fortunas no território. A partir de 1944, Macau transforma-se num dos principais centros mundiais de comércio de ouro e depois do incidente das Portas do Cerco, em 1952, Macau acabou por ver reforçado o seu papel na entrada de bens estratégicos para a China comunista. Macau será sempre um entreposto entre a neutralidade e a guerra, entre o vício e a virtude. Uma arte portuguesa que faz parte do património macaense.
Hoje descobrir esse Macau antigo não é fácil. Onde era a Praia Grande é hoje um aterro, com vias circundantes e os lagos Sai Wan. O Hotel Estoril está abandonado. O Cinema Apolo transformou-se numa boutique de moda e o Nam Van desapareceu para dar lugar a um prédio incaracterístico. As ilhas desertas da Taipa e Coloane são agora casinos flutuantes, ligadas por um enorme aterro, o “Cotai Strip”. Os prédios cresceram. Multiplicaram-se. Dominam o horizonte. Reconhecer esse Macau de outrora é uma tarefa quase arqueológica.
Hoje, mais do que um sítio, Macau é um conceito. Um conceito que vive na diáspora de si própria. Que se desvenda nos recantos das vielas tortuosas da cidade antiga. Que se perde na vertigem das ladeiras íngremes que sobem a nossa memória. Que desliza na nostalgia dos riquexós que povoam a nossa imaginação. Que perdura nas alamedas de sombra das árvores de S. José. Macau exibe-se com pudor. No recato de quem a vive. Na discrição de quem a habita. Na saudade de quem a sente. Um oriente que esconde a sua pérola mais preciosa.

Texto que escrevi para introdução ao capítulo "Cantos e Recantos de Macau" das "Crónicas Maquistas". Livro a editar pelo meu amigo Luís Machado, em Macau.
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